chapéu de palha

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O livro tem como objetivo descrever um fato que acontece com frequência nas escolas, que é o enamoramento de um aluno por seu professor e o papel da escola nas questões socioambientais

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  • 1. Ana Maria PrandeCHAPU DE PALHAHistria de uma aluna boia-friaCAMINHOS NO OS HEU OS FAO COM MEUS PRPRIOS PASSOS.Vida Minha.Minha Vida.Dedicatria:Dedico este livro para todos os meus alunos da cidade de Gara e regio que sempre acreditaram no meu trabalho de professora e sempre me chamaram carinhosamente de Dona Geo.CAPTULO 1Estamos na Estao Ecolgica de Caetetus, falou a diretora, sentada no primeiro banco do nibus da excurso. Alguns alunos levantaram-se, procurando olhar pelas janelas opostas, centenrias rvores que perfumavam a brisa e forravam toda a estrada com folhas macias.Achei que naquele momento, ao ouvir o sussurro das rvores e sentir o aroma da natureza, eu poderia escrever um poema. Mas o que importava aquele cenrio se ramos alunos boias-frias, com olhos fundos, ombros furando as camisetas e se no nosso rosto s apareciam cansao e tristeza?Estvamos praticamente nas vizinhanas onde se situava a escola, mas a luta do nosso cotidiano no permitia que nos dssemos o prazer de percorrer a regio para interpretarmos o ambiente em que vivamos.A escola , para muitos de ns, como um pouso onde podemos pelo menos descansar do caminho de boia fria, dos gatos, da comida fria e das nossas roupas maltrapilhas.Ao caminharmos pela mata, senti as sombras das rvores me envolverem, cortadas por vagos clares.A voz grossa da diretora continuava quebrando o silncio da mata.- Tanto o Patrimnio onde est localizada a nossa escola como esta Estao Ecolgica esto situados numa altitude mdia de 690 metros. O tipo climtico definido como mesotrmico, o solo do tipo posolgico e a flora representa um dos ltimos remanescentes da Floresta tropical semidecdua, possuindo grande diversidade de espcies. O objetivo principal de estarmos aqui o de conscientiz-los sobre a importncia de preservarmos esta mata.

2. Anotava todas as observaes, no s porque seriam cobradas na sala de aula, mas tambm porque aquele contato com a natureza estava apurando minha sensibilidade e me estimulava a buscar um conhecimento mais profundo sobre mim mesma.Gostaria muito de perguntar se ns que tambm somos explorados apenas para fins lucrativos no deveramos ser preservados. At imagino, vrias pessoas chegando at o nosso Patrimnio com faixas cujo lema seria: Vamos Preservar a Vida do Boia-Fria. Precisamos estar sempre atentos, a fim de que possamos exercer nossa conscincia crtica Falava a diretora.Registrei novamente: O problema que as pessoas, na sua maioria, apenas passam pela vida e decididamente no sabem o que est acontecendo aqui e agora, no tm conscincia de si nem do seu mundo. A percepo fragmentria e embaada.As maiorias de ns esto sempre de queixo cado, com o olhar vago. Como despertar uma cultura ecolgica se caminhamos para ser uma cultura de zumbis, que vagamos pela vida? Se j no participamos do nosso mundo, fica fcil violentar a natureza e permanecermos indiferentes aos resultados dessa violncia.Sabe, perguntou a diretora, me indicar onde est um p de Caroba ou Jacarand? Aqui no tem. Mas, sim, Camboat, Cajarara e Canelinha de Cheiro respondeu um aluno do grupo.Pelo menos aqui temos o direito de mostrar que tambm sabemos, no marginalizam aqueles que sabem questionar.CAPTULO IIEu tenho que dizer quem sou.H vinte e cinco anos eu vim ao mundo. Era no ms de junho. Minha me tinha vergonha de perder um dia de trabalho. Estava na poca da colheita de caf que representava um pouco menos de misria para a minha famlia. Nunca usara franqueza com o meu pai, por isso no se atreveu a dizer que estava tendo contraes. A fazenda onde trabalhavam era perto do Patrimnio.Ao chegar ao local de trabalho, minha me se alarmou. As dores estavam insuportveis; resolveu deitar debaixo de um cafeeiro, e assim eu nasci. Mas o verdadeiro significado do meu nascimento foi que sa de um tranquilo ninho, onde a felicidade era perfeita, para um ambiente frio e no propcio para minha primeira respirao.Minha me ficou deitada, segurandome contra o peito, enquanto meu pai saa procura de algum que pudesse nos socorrer.Chegaram logo depois, dois homens com um carro velho e desconjuntado, com assentos todos rasgados e enfiaram minha me no banco de trs, sem nenhuma preocupao com o fato de ter nascido uma criana em condies to pouco propcias. 3. Morvamos numa casinha de cimento com paredes caiadas de branco. Era uma casa simples, no se parecia em nada com os casares onde moravam os donos das fazendas; mas tambm no era como as casas dos outros pobres que moravam em barraces feitos de velhas tbuas encardidas pelo tempo.A conduo chegou em nossa casa e fomos despejadas sem nenhum at logo.Depois de lavada, minha me me olhou, atentamente, e disse: Ana Tereza, perdoe a sua me e o seu pai. Que os seus olhos lindos carreguem s as coisas bonitas e alegres da vida. No enxerguem a tristeza da vida, mas se atenha ao riso fcil do seu pai e a minha voz que sempre entoar canes que vo fazer voc voar pela imensido dos cus.CAPTULO III- Ana Tereza, acabamos de conhecer uma reserva florestal. Que concluses voc tirou das explicaes e das observaes ao percorrermos a trilha ecolgica? Diretora, acredito que a conscincia ecolgica um assunto importante, mas creio que ele deva comear pela autopercepo, respondi.- Mas ento voc acha que foi ingenuidade lev-los a conhecer uma reserva? Voc est negando o valor da excurso?- No, mas eu creio que a autopercepo comea no momento em que o homem percebe que destri a natureza como a si prpria. Expliquese melhor, Ana Tereza. Tem gente, e creio que a maioria delas, que seguem pelas vidas imersas no desconhecimento do que est acontecendo em si mesmas, principalmente nos seus corpos, e no mundo ento nem se falaA diretora, como era chamada por todos os alunos da escola, gostava sobremaneira daqueles alunos que estavam ali. Para ela eu era a aluna notvel da escola; que tinha nascido para contrariar os que pretendiam determinar meu destino. Fui assim desde que entrei na escola. Talvez pela beleza e candura que meu rosto irradiava. Queriam que eu fosse mansa, uma pacfica ovelha do rebanho de Deus. Mas minha trajetria como aluna e como coordenadora dos trabalhadores rurais mostrava que eu trilhava imprevistos caminhos. Eu era rebelde, inteligente, inconformada por vocao. E para ser o que eu era, tentava com todas as minhas foras aprender as acrobacias necessrias para ser uma ave de vo livre.Desde pequena, j na primeira srie, eu sabia das diferenas sociais, sentia o cheiro da desigualdade de classes. Conhecia muito bem a cerca de arame farpado que separava a minha existncia do mundo dos bares do caf. 4. Num discurso que proferi na 4 srie primria, citei que apenas um ocasional perfume das damas-da-noite, uma flor que exala um doce perfume durante a noite, ligava estes dois universos: o dos pobres e o dos ricos.Apesar de ter materializado to cedo a realidade que me cercava, conservei a minha imaginao.Eu vivia num mundo onde as crianas j nascem velhas, onde a fome e o desemprego obrigavam meninos e meninas de quatro ou mesmo trs anos de idade a trabalhar mais de dez horas por dia. Eram os chamados rfos da colheita, que trabalhavam na varrio, isto , na varredura dos gros de caf que caam nos ltimos perodos da maturao.S que, mesmo adulta, aos vinte e cinco anos, cursando a ltima srie do segundo grau, jamais me esqueci dos sofrimentos de minha infncia, que so os mesmos da infncia de hoje.- E o lanche? perguntou um dos alunos da excurso. Quando vamos tomar?CAPTULO IVMeu pai sempre foi um trabalhador caprichoso e honesto. Era alto, magro, de cabelos e barba pretos. No desperdiava tempo com conversao desnecessria, para ele derramamento intil de energia. A voz era lenta, nasal, pigarreada pelo excesso de cigarro de palha. Os gestos eram vagarosos. Homem de imenso vigor, resistente, era considerado como o melhor derriador, isto , conseguia retirar os gros, com as mos correndo pelos galhos do p de caf, sem molestar a rvore, tratando-a com o mesmo carinho com que alisava suas grossas barbas.Escutava sereno as minhas histrias, sempre com os olhos castanhos perdidos dentro dos meus, percebendo qualquer sinal invisvel das minhas inquietaes.Minha me era ossuda, com longos cabelos castanhos e muito envelhecidos por causa do sol que teimava em varar seu roto chapu de palha e queimar suas faces. Era uma mulher ocupadssima e extremamente solicitada pela vizinhana. Gostava de cantar e de contar histrias.Um dia, eu lhe perguntei de onde vinham tantas histrias. Parecia que bastava mame abrir a boca, com aquele sorriso rosado que ela tinha e l vinha uma histria completa, com bruxas, fadas e prncipes, transpassadas por sacis, mulas sem cabea e lobisomens.A expresso prestar ateno fazia parte da sua maneira de encarar a vida. Durante o dia vrias eram as vezes em que minha me se dirigia a mim com a seguinte frase:Preste ateno, menina, nesta formiga. Olhe aquele cavalinho de Deus. Puxa, que linda dana faz a poeira no raio de sol em frente da janela! Corra. Ana Tereza, preste ateno na corrida da chuva na vidraa. . .Mame adorava ler. Achava que o mundo da leitura era mgico, e, para que eu entrasse nesse mundo mgico, me alfabetizou aos quatro anos de idade. 5. Quando a comida comeava a escassear na prateleira, minha me mudava rapidamente de humor. Ento, ela se tornava toda rancor e no seu rosto estampava uma angstia nebulosa. Por qualquer bobagem que eu fizesse, apanhava, mas apanhava tanto que minhas costas ficavam com manchas sangrentas.CAPTULO VUma das primeiras coisas que guardei na minha memria sobre a minha infncia foi uma viagem que fiz de caminho. Que idade teria eu? Pelas contas de minha me, deveria ter uns trs anos.Estava sentada no colo de mame, amos com um motorista de uma fazenda fazer compras numa cooperativa.O motorista conversava o tempo todo com um radinho que tocava msicas caipiras. Gritava, s vezes, com os passageiros que iam na carroceria do caminho.Um pouco depois de sairmos do Patrimnio, o motorista fundou o p no acelerador com muita fora.O caminho ia cada vez mais rpido, os passageir