artaud-nietzsche-deleuze: dobras da crueldade

Download ARTAUD-NIETZSCHE-DELEUZE: dobras da crueldade

Post on 07-Jan-2017

217 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 1

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIS

    ESCOLA DE MSICA E ARTES CNICAS

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO INTERDISCIPLINAR EM PERFORMANCES

    CULTURAIS

    RODRIGO PEIXOTO BARBARA

    ARTAUD-NIETZSCHE-DELEUZE: dobras da crueldade

    Projeto de Pesquisa apresentado ao Programa de Ps-

    Graduao Interdisciplinar em Performances Culturais, da

    Escola de Msica e Artes Cnicas EMAC/UFG, como

    requisito parcial para a concluso do mestrado.

    Mestrando: Rodrigo Peixoto Barbara

    Orientador: Professor PhD Paulo Petronilio Corra

    Linha de pesquisa: Espaos, Materialidades e Teatralidades

    Goinia-Gois

    2015

  • 2

    SUMRIO

    DOBRAS INTRODUTRIAS

    I - DOBRA - Nietzsche e a Mscara da Crueldade

    I.I - Dionsio, Deus Cruel e Trgico

    I.II - A morte de Deus, do Sujeito e do Homem

    I.III - O Trgico e a Alegria como Crueldade

    II - (DES)DOBRA - Teatro da crueldade e o Fechamento da Representao

    II.I - O Plat Artaud-Derrida

    II.II - Crueldade como acontecimento

    II.III - O Teatro e o Duplo

    III - (RE) DOBRA - O Corpo sem rgos e Desejo Cruel

    III.I - O Plat Deleuze-Artaud

    III.II - Para por fim ao juzo de Deus

    III.III - Esttica da Diferena

    Dobra Fora, o Fora signo da crueldade

    DOBRAS (IN) CONCLUSIVAS

    8 - REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

  • 3

    1 - INTRODUO

    Amarelos: assim so chamados os pregadores da morte;

    ou ento os negros. Mas eu quero mostr-los noutras cores.

    Assim falou Zaratustra

    (NIETZSCHE, 2012, p. 71)

    O meu corpo como a cidade de Deus, no tem lugar,

    mas de l que se irradiam todos os lugares possveis, reais ou utpicos.

    O Corpo Utpico

    (FOUCAULT, 2010)

    E o corpo perde-pede a voz! Em um lapso de crise ele se bifurca e se metamorfoseia

    ora sendo um, ora sendo nenhum, ora sendo o tudo, a totalidade em quase um total de nada,

    de vazio, de queixas e deixas que ele deixa pelo caminho, pelo seu prprio caminho que sem

    dvidas, para no ter certeza de nada, um descaminho muito fluido. Fluido dele e por ele

    mesmo. preciso dar conta do corpo. preciso? E quem dar conta dele se nem ele mesmo

    d? Ento, necessrio no dar conta, e, para isso, importante no dar conta mesmo, pois

    fcil dar conta de algo feito para dar conta, mas o corpo, ah!, esse no foi feito para tal fim.

    No foi feito para o fim.

    Nesse propsito, propsito do prprio corpo, ou pelo menos desse corpo sem

    finalidade, que se resvala as linhas de fuga desse projeto que tende a ser mais uma esquizo-

    escrita de uma dissertao, do que uma dissertao acadmica, feita por um acadmico em

    prol de uma academia muito cheia de saberes, cheia de si, e que na realidade, j est, sim,

    cheia de si, quase a ponto de ser outra, ou outras.

    Para tanto, no podendo ser diferente, e bem aventurado a permisso de poder ser

    mais uma vez diferente, que essa pesquisa se desliza na filosofia1 antiaderente do poeta, ator

    e dramaturgo francs, Antonin Artaud, afetado pelo filsofo alemo, Friedrich Nietzsche, e

    que afetou os filsofos franceses Gilles Deleuze e Jacques Derrida, para que juntos, em uma

    mquina desejante do pensamento, possamos dar a esse corpo, o que h tempos ele realmente

    merece.

    1 Se pegarmos a biografia de Antonin Artaud, no acharemos informaes de que ele seja um filsofo e nem que

    tenha escrito filosofias, mas, fundamentado por Deleuze e Guattari, no livro, O que a filosofia?, onde

    pontuam que o filsofo amigo do conceito, ele conceito em potncia (DELEUZE, GUATTARI, 2010, p.

    11) ouso me aproximar de Artaud o considerando um escritor-filsofo gago da sua prpria lngua.

  • 4

    O interesse por Artaud, Nietzsche, Deleuze e Derrida surge de uma conexo de

    pensamentos. Ambos os autores tem um dilogo muito frtil acerca do mundo e da cultura

    que estamos inseridos e que ajudamos a constituir. Porm, um mundo e uma cultura que vo

    contra as suas prprias constituies, que se desatam dos ns estabelecidos, que rompem com

    as barreiras, que desenvolvem a anarquia do sistema e que promovem caos na normalidade.

    Portanto, o que ser redigido nesse projeto e logo mais colocado como uma esquizo-

    dissertao de mestrado, perpassa pelas runas de um ser/artista em total desarmonia, delrio e

    caos criativo.

    Antes de dar continuidade, convido-vos a um breve passeio pela histria dessa

    proposta:

    Esse estudo vem amparado pelas minhas vivncias prticas e tericas iniciadas na

    graduao e tinha como foco inicial desenvolver um trabalho corporal do Performer2 cnico,

    tendo como investigao, a somato-psicopedagogia, mtodo teraputico difundido pelo

    fisioterapeuta, osteopata e doutor em Cincia da Educao, Danis Bois. Com o processo

    necessrio de ir talhando a pesquisa, esta, antiaderente, foi-se desgrudando da somato-

    psicopedagogia e tomando outro rumo, este, assemelhando com a reflexo de Deleuze e

    Parnet (2004), ao se referirem a palavra substituvel, se alguma no vos convm, agarrem

    noutra, ponham outra no lugar (p. 13).

    Assim, o estudo acerca da Performance Cnica Corporal no deixou de ser um

    interesse pessoal, artstico e acadmico, mas alou outros voos. Ao perpassar por essas crises

    de reorganizao constante, no intuito de promover um lugar propcio para a presente

    proposta, e dar continuidade sua elaborao, foi que me coloquei no desconfortante

    confronto sugerido pela sua prpria antiaderncia. Ento, surge permeando o labirinto

    rizomtico, o dilogo fundamental desta, com as filosofias de Artaud, Nietzsche, Deleuze e

    Derrida. A vertente epistemolgica do trabalho agora era outra.

    Pensar o Corpo na Performance, neste trabalho, tendo como respaldo um processo

    filosfico nmade, faz-se fundamental, pelo teor da escrita, pensar em uma diferena fundada

    nas devassas curvas de um pensamento denominado como Filosofia da Diferena. Para

    tanto, necessrio primeiramente pensar a Diferena luz da Diferena, onde a mesma, para

    Deleuze (2000) no o diverso. O diverso dado. Mas a diferena aquilo pelo qual o dado

    2 Performer, com letra maiscula, um homem de aco. Ele no algum que faz de outro. Ele um fazedor,

    um sacerdote, um guerreiro: est fora dos gneros estticos (GROTOWSKI, 2010).

  • 5

    dado. aquilo pelo qual o dado dado como diverso. A diferena no o fenmeno, mas o

    nmero mais prximo do fenmeno (p. 209), e ainda,

    preciso que a diferena seja em si mesma articulao e ligao, que ela

    relacione o diferente ao diferente sem qualquer mediao pelo idntico, pelo

    semelhante, pelo anlogo ou pelo oposto. preciso uma diferenciao da diferena,

    um em-si como diferenciante, um Sich-unterscheidende, pelo qual o diferente ao

    mesmo tempo reunido, em vez de ser representado sob a condio de uma

    semelhana, de uma identidade, de uma analogia, de uma oposio prvias. Quanto

    a estas instncias, deixando de ser condies, elas so apenas efeitos da diferena

    primeira e de sua diferenciao, efeitos de conjunto ou de superfcie que

    caracterizam o mundo desnaturado da representao e que exprimem a maneira pela

    qual o em-si da diferena oculta a si prprio ao suscitar aquilo que o recobre (Ibdem,

    p. 116, 117).

    A Diferena definida por Deleuze se torna um espao propcio para se pensar o

    Corpo na Performance, e a Performance, enquanto ao, interao e relao, definida por

    Schechner (2006), o lugar onde se pode perpassar o pensamento desterritorializante da

    Diferena. E aqui se abre fronteiras de ambas as abordagens, a um Fora que to dentro

    quanto o prprio dentro de cada um desses pensamentos. Desloca e esboa um

    posicionamento nmade.

    Partindo dessas e nessas dobras, o que se coloca com esse estudo, um provocar de e

    no pensamento, rasgar as vestes dos conceitos do Corpo, da Representao e da Performance,

    e costurar, no plano de imanncia, um entre-remendos, fabricando, criando e afirmando como

    prope Deleuze e Guattari (2010), outro conceito, uma outra proposta, um outro desvio de

    olhar, ou mais ainda, uma desterritorializao do prprio conceito.

    Para tal, se pensar essa cartografia pelo agenciamento da Crueldade e do Corpo sem

    rgos. A crueldade e o CsO3, sero as linhas de fugas de um pensamento em Devir, uma

    escritura num processo, ou seja, numa passagem de Vida que atravessa o vivvel e o vivido

    (DELEUZE, 1997, p.11). Esse Devir-escritura, se emaranhando pela Crueldade e pelo CsO,

    ambos conceitos difundidos por Artaud, tender a uma conexo com o corpo-margem, com o

    corpo-nmade, com o corpo potncia do Fora. Uma conexo com o Fora que no se

    desconecta e s Fora porque conexo.

    A Crueldade, termo propriamente dito, artaudiano, que subverteu o teatro ps

    Artaud, vem nesse processo de escrita nmade, subverter palavras, frases, pargrafos e o texto

    inteiro de uma dana textual do corpo afetado pelo desejo, pela desorganizao, pelo caos,

    fazendo um furo nos padres normativos, bagunando as estruturas, seguindo um fluxo que

    desestabiliza, virando o corpo s avessas, promovendo uma dana s avessas, uma

    3 No decorrer do texto se usar apenas essa abreviao do Corpo sem rgos.

  • 6

    comunicao efervescente com o CsO . Pois bem, imaginei um teatro da crueldade que

    dana e que berra para fazer cair o