andréa m. c. guerra a psicose

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  • A psicose

  • Coleo PASSO-A-PASSO

    CINCIAS SOCIAIS PASSO-A-PASSO

    Direo: Celso Castro

    FILOSOFIA PASSO-A-PASSO

    Direo: Denis L. Rosenfi eld

    PSICANLISE PASSO-A-PASSO

    Direo: Marco Antonio Coutinho Jorge

    Ver lista de ttulos no fi nal do volume

  • Andra M.C. Guerra

    A psicose

  • Copyright 2010, Andra Mris Campos Guerra

    Copyright desta edio 2010:Jorge Zahar Editor Ltda.

    rua Mxico 31 sobreloja | 20031-144 Rio de Janeiro, RJtel.: (21) 2108-0808 | fax: (21) 2108-0800

    editora@zahar.com.br | www.zahar.com.br

    Todos os direitos reservados.A reproduo no autorizada desta publicao, no todo

    ou em parte, constitui violao de direitos autorais. (Lei 9.610/98)

    Grafi a atualizada respeitando o novo Acordo Ortogrfi co da Lngua Portuguesa

    Reviso: Sandra Mager, Eduardo FariasComposio: Letra e Imagem

    Impresso: SermografCapa: Srgio Campante

    CIP-Brasil. Catalogao na fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

    Guerra, Andra M.C. G963p A psicose / Guerra, Andra Mris Campos, 1971-.

    Rio de Janeiro: Zahar, 2010. (Passo-a-passo) Inclui bibliografi a ISBN 978-85-378-0267-0

    1. Psicoses. 2. Psicanlise. I. Ttulo. II. Srie.

    CDD: 616.89 10-2388 CDU: 616.89

  • Sumrio

    Introduo 7

    A psicose em Freud 12

    Transferncia nas psicoses a partir de suas modalidades clnicas 16

    Estabilizao psictica em Freud 22

    A psicose em Lacan 26

    O desencadeamento psictico 37

    Abordagem lacaniana das estabilizaes psicticas 39

    Estabilizao psictica e ato 41

    Estabilizao psictica e metfora delirante 46

    Estabilizao psictica e obra 61

    Referncias e fontes 79

    Leituras recomendadas 83

    Sobre a autora 87

  • No desejo suscitar convico;

    desejo estimular o pensamento e

    derrubar preconceitos.

    Sigmund Freud

  • 7

    Introduo

    A loucura sempre suscitou curiosidade, temor, atrao.

    Desde a poca em que os loucos eram confi nados em

    embarcaes errantes, conforme retratado na famosa tela

    Nau dos loucos, de Hieronymus Bosch que tambm

    remetia prpria marginalidade do pintor no perodo

    Clssico , a loucura associada aos medos mais pro-

    fundos do homem, ao lado da morte. Mas tambm j foi

    cantada como elemento contingente da vida humana. Ao

    ser transformada em objeto de estudos pela psiquiatria,

    perdeu a dimenso de expresso da vida humana e redu-

    ziu-se a doena mental, transformando-se negativamente

    em patologia. Mesmo hoje, quando se trabalha pela inclu-

    so social da diferena que a loucura porta em relao s

    fronteiras simblicas que regulam a convivncia humana,

    a linguagem e as excentricidades dos loucos ainda nos des-

    pertam o interesse em desvendar seus mistrios.

    A psicanlise, em especial, se dedicou a essa tarefa.

    Desde sua inveno, com Sigmund Freud, a loucura, teori-

    camente denominada psicose, foi alvo de refl exes, tendo

    seus estudos avanado muito com o psicanalista francs

    Jacques Lacan. Freud acreditava que a psicanlise era con-

  • 8 Andra M.C. Guerra

    traindicada ao seu tratamento, dado que nas psicoses no

    se estabelece o lao de amor transferencial com o analista,

    essencial a uma anlise. Lacan, por seu turno, psiquiatra

    de formao, dizia que no devamos recuar diante da psi-

    cose, mas, antes, aprender com ela a reconhecer seu estilo

    e suas sadas. Ele discutiu a particularidade da manifes-

    tao da transferncia nas psicoses constatando que ela

    se presentifi cava no tratamento analtico atravs de uma

    forma de amor que ele denominou erotomanaca, a partir

    dos estudos freudianos. A erotomania implica uma forma

    de amor projetiva, exacerbada e delirante que precisa ser

    manejada a fi m de que o psictico possa produzir, durante

    seu percurso analtico, uma soluo subjetiva.

    No h dvida de que algo funciona diferente nas psi-

    coses. O psictico delira e parece inventar histrias com

    ou sem sentido, porm, sem substrato verdico, alucina

    imagens e sensaes irreais, desconfi a, deprime-se com

    virulncia, chegando ao risco de um ato suicida. Enfi m,

    parece operar numa lgica que nem sempre conseguimos

    apreender. fato.

    Muitas vezes, as solues que os prprios psicticos

    desenvolvem para tratar desses sintomas prescindem de

    um analista ou mesmo de um tratamento clnico. Em ou-

    tras situaes, a violncia de suas manifestaes tal que

    exige uma interveno imediata, o que nem sempre deixa

    ao sujeito uma possibilidade de manifestar-se. Que tudo

    isso no seja tomado como dfi cit foi a advertncia que

    Lacan nos legou ao tomar ao p da letra o que diziam os

    psicticos. Assim como Freud j nos havia ensinado a rea-

  • 9A psicose

    lizar com as histricas com as quais descobriu o mto-

    do clnico de escuta do inconsciente atravs da associao

    livre , tambm Lacan se ps a ouvir as produes dos

    psicticos para delas extrair a direo para seu tratamento

    possvel.

    Foi a partir da constatao da diferena na linguagem

    e na forma de os psicticos se posicionarem na vida e no

    lao transferencial que Lacan pde discernir, nomear e ar-

    ticular com a clnica os vrios caminhos percorridos por

    eles na trilha de sua estabilizao. Ele apostou na sugesto

    de Freud de que uma mudana no mtodo psicanaltico

    permitiria o atendimento das psicoses por psicanalistas.

    Paralelamente, Lacan tambm estudou casos que no re-

    correram a um tratamento clnico, buscando extrair deles

    um aprendizado sobre o uso de outros recursos na elabo-

    rao das sadas que esses sujeitos puderam construir, le-

    vando, assim, a teoria psicanaltica a avanar.

    Estudando a situao de uma jovem senhora que aten-

    deu no planto do hospital psiquitrico de Sainte-Anne,

    em Paris, quando ainda realizava sua formao mdica,

    verifi cou que, em alguns casos de paranoia, o doente in-

    fl igia-se uma punio de tal sorte que com esta cessavam

    seus delrios. Ele denominou esse quadro de paranoia de

    autopunio. Praticamente enquanto teorizava esse qua-

    dro clnico, atravs da discusso da histria dessa mu-

    lher, Aime, aconteceu na Frana um crime que ganhou

    notoriedade e recebeu, tambm de Lacan, uma anlise.

    Tratava-se de um duplo assassinato cometido pelas irms

    Papin. Elas atacaram ferozmente sua patroa e a fi lha dela

  • 10 Andra M.C. Guerra

    com utenslios domsticos como facas, abajures e ferros,

    chegando a arrancar os olhos da patroa e tom-los nas

    mos, como se se protegessem, dessa maneira, de seu olhar

    perscrutador e persecutrio.

    Lacan localizou nesse ato atroz uma tentativa de apa-

    ziguamento dos delrios que rondavam a dupla. No que

    ele o tenha defendido. Mas, certamente, pde extrair as

    consequncias clnicas da passagem ao ato na psicose, que

    pode ser pensada como uma tentativa de extrair aquilo

    que, em excesso, inunda o sujeito de imagens alucinadas

    e de sofrimento. Entretanto, longe de favorecer o enlaa-

    mento social do sujeito, o destri. De qualquer maneira,

    estava colocada desde j a questo dos estilos que o sujeito

    busca para tratar seus impasses subjetivos.

    Posteriormente Lacan retomou o clssico estudo freu-

    diano acerca da soluo delirante na psicose. Trata-se da

    anlise do caso do presidente Schreber, o magistrado ale-

    mo que teve uma grave crise psictica ao ser nomeado

    em seu pas para um cargo semelhante ao de nosso mi-

    nistro do Supremo Tribunal de Justia. Com recorrentes

    crises hipocondracas, Schreber se depara com um cargo

    impossvel de ocupar o de representante da lei , dado

    seu modo peculiar de funcionar simbolicamente com o

    corpo e com a linguagem. Ele passa a ter alucinaes que

    ganham um colorido delirante at o ponto em que se es-

    tabilizam na ideia de como seria bom copular com Deus

    e ser sua mulher para gerar uma nova raa de homens.

    Delrio que lhe confere uma lgica interna, no partilhada

    pelos demais, mas que, ao mesmo tempo, lhe permite rei-

  • 11A psicose

    vindicar a retomada de suas atividades profi ssionais. Sa-

    bemos que no raro o caso de profi ssionais competentes,

    pais zelosos e amigos leais que so psicticos. E muitas das

    vezes sequer notamos que suas esquisitices so manifesta-

    es de um modo de ser muito singular.

    Pretendemos discutir aqui tambm essas estranhas, po-

    rm efi cazes estratgias, a fi m de extrairmos orientaes

    para a clnica psicanaltica com as psicoses ou apenas para,

    com elas, entendermos um pouco mais a lgica dessa estru-

    tura clnica. Esse aprendizado nos desloca de uma posio

    histrica e culturalmente preconceituosa que construmos

    ao longo de nossas vidas. Desde a infncia aprendemos que

    o homem do saco o louco que vai nos roubar, ou iden-

    tifi camos a loucura a imagens de violncia e debilidade que

    no correspondem ao que mais comum em suas manifes-

    taes. Compreender a estrutura psictica e as solues nas

    psicoses nos auxilia a elucidar, com mais crtica, a diferena,

    e no a defi cincia, desses sujeitos.

    No fi nal da vida, Lacan ainda introduziu algumas novi-

    dades conceituais em sua obra, exigindo uma sofi sticao

    terico-clnica que alcanou em cheio as