4. a escrita como prÁtica artÍstica - dbd puc .retornar à origem da ideia de escrita. ......

Download 4. A ESCRITA COMO PRÁTICA ARTÍSTICA - DBD PUC .retornar à origem da ideia de escrita. ... plásticas

If you can't read please download the document

Post on 09-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

4.

A ESCRITA COMO PRTICA ARTSTICA

O que todos estes trabalhos manifestam? Alm de uma problematizao da

autoria, instaurando novos modelos de autor, eles questionam a especificidade da

linguagem literria. Guardadas as diferenas entre si, cada obra apresenta um

modo de estar fora de um lugar ou categoria exclusiva, e, assim, problematizar

identidades. At mesmo a ideia de uma traduo problemtica para estas obras:

exige movimentos e recursos no tradicionais. A prpria definio do que a

escrita entra em jogo: se crio textos sem de fato escrev-los, o que h de

especfico, para a literatura, no ato de escrever de prprio punho? Se posso

compor um escrito via recortar e colar, selecionar e organizar, como continuar

pensando que a literatura est, em seu gesto fundador, ligada a uma escrita

original?

Duchamp diz que a ideia deartista falsa. Ele gostava de se pensar como

um arteso, algum que faz coisas, geralmente com as mos. A escrita por

apropriao, em certos momentos como no trabalho de Jen Bervin e na minha

srie de colagens, faz com que a figura do escritor se aproxime da do arteso. Em

MixLit e Nets, gestos como recortar, colar, tecer, so compartilhados entre

artesania e escritura, e assim, a ideia de escritor se descola da ao de digitar ou

escrever lpis ou caneta. J em trabalhos como Sports e Traffic, de Kenneth

Goldsmith, a autoria se liga fortemente ideia de digitar, de percorrer, no teclado

do computador, todas aquelas palavras que algum escreveu antes, apesar da

autoria no se fazer apenas pela gerao de uma segunda via daquele texto, e sim

pelo deslocamento de suporte e contexto. Autor-montador. Autor-leitor. Autor-

deslocador.

perceptvel, em todas essas obras, um questionamento acerca do que

significa o gesto da escritura. Como se escreve?, perguntam essas obras. Copiar

escrever? E copiar e misturar e montar? Selecionar o escrito e criar um novo

escrito em cima do primeiro, o que ?

Quando Jonatham Safran Foer suprime trechos de Bruno Schulz, quem se

expressa Jonathan Safran Foer, Bruno Schulz, um com o outro, ou nada disso?

DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 1311734/CA

97

O que se estabelece uma criao de texto em parceria talvez semelhante quela

do editor com o escritor. A ao de Safran Foer pode ser acomodada na funo de

um editor do texto de Schulz. No entanto, no um editor comum, pois no estar

estabelecendo o texto em conjunto com o autor de modo que o autor possa ouvi-

lo, concordar, discordar e alterar seu texto. Safran Foer em modo editor est

estabelecendo um novo texto com o texto de Schulz. Safran Foer est iniciando

um novo livro fora do grau zero da escrita. A escrita de Schulz , para Safran

Foer, um ready-made. Safran Foer, ao realizar Tree of Codes, lana ao mundo

uma obra em que a propriedade das palavras entra numa zona de penumbra. Ele

estabelece uma parceria pstuma com Bruno Schulz. Curioso que o nome na capa

seja o de Safran Foer o editor imprevisto de Schulz e no daquele que, num

caderno ou mquina de escrever, fez aquelas palavras brotarem no papel. Tree of

Codes entra assim numa zona opaca em relao a autoria, e, diferente da definio

de Barthes da escrita como um tecido de citaes no reconhecidas, Tree of Codes

assim como os trabalhos de Jen Bervin reconhece sua fonte e traz, na

materialidade da escrita e do papel, esta problemtica do pertencimento das

palavras. De quem so elas, de Schulz ou de Safran Foer? Poderamos, num

exerccio de imaginao, estabelecer uma percentagem, na responsabilidade pela

existncia do texto, para cada um deles?

Poderamos, ainda, realmente dizer que Safran Foer escreve? O ato de

trabalhar sobre as palavras de Bruno Schulz e criar um livro derivado de The

street of crocodiles torna a ao de Safran Foer um escrever? Talvez precisemos

retornar origem da ideia de escrita.

Vilm Flusser diz que a palavra Escrever origina-se do latim scribere,

que significa riscar (ritzen) (FLUSSER, 2011, p.25). Mas de que tipo de riscar

estamos falando? Riscar algo no sentido de excluir esse algo? Ou riscar no sentido

de criar um risco sobre certa superfcie, atuar em cima dela? Em ambos sentidos, a

ao de Safran Foer se coaduna com a ideia de escrever. Vilm Flusser acrescenta

que a palavra grega graphein significa gravar (graben). Portanto, diz Flusser,

escrever era originalmente um gesto de fazer uma inciso sobre um objeto, para

o qual se usava uma ferramenta cuneiforme (um estilo) (FLUSSER, 2011,

p.25) Nada mais semelhante ao ato executado por Safran Foer sobre o livro

original de Bruno Schulz: Safran Foer faz incises sobre um objeto, inicialmente

com uma caneta verde, como podemos ver nos rascunhos do projeto, sinalizando

DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 1311734/CA

98

para a editora que produzir o livro quais trechos devero ser excludos, onde

devero abrir buracos. Um procedimento que transforma a leitura em escrita,

certamente, se pensamos na definio de Flusser.

Flusser diz que hoje no se inscreve mais, no h mais inscries, e sim

sobrescries, ou seja: no se escreve mais em algo, mas sobre algo. Para ele,

inscrever um gesto cujo objetivo romper com as condies do crcere, isto ,

abrir crateras nos muros do mundo objetivo que nos encarceram (FLUSSER

2011, p.27). Ana Pato fala sobre a comparao que Flusser estabelexe entre as

duas tcnicas de escrita:

Enquanto inscrever tecnicamente mais complicado exige fora, pacincia e cautela , demanda menos: apenas uma ferramenta afiada e uma superfcie rgida. Por outro lado, o desenvolvimento das ferramentas de sobrescrever criou estruturas cada vez mais complexas (como os processadores de texto), mas construdas para serem rpidas e fcies de usar. (PATO, A. 2012, p.176)

Safran Foer o leitor que l vagarosamente, catando milho por entre as

palavras de Bruno Schulz. Um vdeo no site da editora Visual Editions demonstra

o quo cuidadoso e especfico foi o processo de feitura de Tree of Codes. Em

certas passagens, vemos diversas pessoas sentadas em volta de uma mesa

realizando recortes. Um processo completamente diferente daquele onde os livros

so fabricados por meio da impresso daquilo que um autor sobrescreveu no

arquivo de texto digital. A editora Visual Editions, dado o trabalho grfico e

material cuidadoso e inspirado dos seus livros, produz, em mdia, quatro novos

livros por ano. Nmero baixssimo se comparado ao de uma editora que imprime

sobrescries.

Em Tree of Codes, Safran o leitor com tesoura nas mos, que vai abrindo

crateras, espaos, buracos, que no sero buracos de sentido, mas uma construo

de novos sentidos, novas formas de ligar palavras, sendo assim, no um

destruidor, mas um novo criador um criador, inclusive, que no tratar apenas

com as palavras, mas com a maneira como elas aparecem no objeto fsico que o

livro.

O aspecto visual e material de Tree of Codes so componentes de alto

impacto. H um efeito no livro que no depende da leitura. Podemos coloc-lo

tanto numa mesa de centro geralmente destinada a livros de rpido efeito como

DBDPUC-Rio - Certificao Digital N 1311734/CA

99

livros de fotos ou tambm na nossa estante, onde guardamos os livros de leitura

de textos. Onde coloc-lo? qual lugar ele pertence?

Essas no so questes exclusivas de um livro como esse. Edies

comemorativas e edies de luxo, por exemplo, tambm suscitam essa questo.

No entanto, a diferena que Tree of Codes a primeira edio de um trabalho, e

no uma segunda, terceira ou quarta, ou seja, ele assim em sua primeira

encarnao. Na verdade, seria difcil at pensar numa outra encarnao para esta

obra, j que sua materialidade, se alterada, o torna uma outra obra, alterando

possivelmente tudo aquilo que foi pensando pelo autor. J num livro-texto que

assume vrias edies, claro que a leitura muda de edio para edio, como

sabemos ao encarar aquelas edies em que o espaamento entre as linhas to

curto que muda o nosso prazer de leitura. No entanto, o texto o principal

justamente por isso o editor se sente na liberdade de poder mudar sua formatao

e isso permanece inalterado. Diferente desses exemplos, em Tree of Codes a

obra no o texto, o texto e a sua forma de apresentao, que na verdade deixa

de ser apenas uma forma de apresentao para ser a prpria obra, junto com o

texto.

As pginas esburacadas criam uma perfeita comunho entre proposta e

forma: elas intensificam o lugar poroso do livro. As folhas so frgeis, preciso

manejar o livro com cuidado para no rasgar suas pginas. Essa fragilidade ressoa

ainda a prpria fragilidade das categoria exclusivistas: o livro cria buracos em

nossas definies. A ideia de autor frgil, parecem dizer as pginas que,

sobrepostas, mostram uma e outra, e outra, e outra... a palavra nunca de um s,

por trs dela tem outro, e outro, e outro... sua materialidade um acrscimo de

sentido ao trabalho como um todo, diferente da maioria dos textos em formato

livro.

O fato de ser uma obra de supresso (die-cut) torna Tree of Codes mais

comparvel