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  • SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros ASSIS, SG., and AVANCI, JQ. O adolescente e sua famlia: prismas que constroem o 'eu'. In: Labirinto de espelhos: formao da auto-estima na infncia e na adolescncia [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2004. Criana, Mulher e Sade collection, pp. 81-128. ISBN 978-85-7541-333-3. Available from SciELO Books .

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    Todo o contedo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, publicado sob a licena Creative Commons Atribio 4.0.

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    3 - O adolescente e sua famlia prismas que constroem o 'eu'

    Simone Gonalves Assis Joviana Quintes Avanci

  • 3

    o AOOLESCENTE E SUA FAM L IA: PRISMAS QUE CONSTROEM O 'EU'

    Independente da sua estrutura e configurao, a famaia o palco em que se vivem as emoes mais intensas e marcantes da experincia

    humana. o lugar onde possvel a convivncia do amor e do dio, da alegria e da tristeza, do desespero e da esperana. A busca do equilbrio

    entre tais emoes, somada s diversas transformaes na configurao deste grupo social, tem-se caracterizado uma tarefa ainda mais

    complexa a ser realizada pelas novas familias. (Wagner, 2002)

    o impacto da convivncia familiar no crescimento e desenvolvimento da criana e na construo de sua auto-estima fundamental. Ao longo

    do presente captulo, se poder notar outra faceta do adolescente perante o

    espelho: a forma como visto e v seus familiares.

    A literatura aborda duas principais categorias no estudo das famlias:

    uma enfatiza a estrutura e outra o relacionamento familiar. Hoje sabe-se

    que h uma parcela considervel de adolescentes inseridos em famlias cujos

    pais no habitam o mesmo domiclio. Possivelmente, essa uma marca de

    poca e um fato geracional incontestvel : o modelo tradicional de famlia,

    composto por pai, me e filhos, no se constitui mais no modelo nico e

    nem preponderante. Vrias combinaes relacionais passaram a se tornar

    comuns, ainda que a referncia de famlia tradicional mantenha uma

    representao forte e norteadora das aes de seus membros e das

    relaes e arranjos constitudos no interior dessa instituio (Claves, 2000) .

    81

  • Castel (1991) observa que as mudanas ocorridas no modelo familiar

    nuclear burgus denotam a busca de novos sentidos e adaptaes realidade.

    Nesse movimento, as famlias perseguem caminhos diversificados de

    educao, visando a ajustar-se s mudanas sociais, seja da redefinio

    dos papis de homens e mulheres na diviso do trabalho e no interior das

    famlias, seja do impacto do processo de globalizao nas sociedades .

    As mudanas ocorridas no modelo familiar so oriundas,

    principalmente, do aumento do nmero de divrcios e separaes, atingindo

    todos os estratos sociais. Tambm significativo o nmero de mortes de

    familiares, especialmente entre famlias pobres, como conseqncia da violncia

    urbana. Uma srie de estudos sobre como estas mudanas influencia o

    desenvolvimento dos filhos vm sendo desenvolvidos.

    Ribeiro (1988) identifica trs linhas de abordagem: a que considera

    que o divrcio influencia negativamente o ajustamento e o desenvolvimento

    dos filhos; a que afirma que ocorre um ajustamento ao longo do tempo;

    isto , o divrcio dos pais pode ter conseqncias negativas, mas com o

    tempo os filhos se ajustam situao e passam a viver normalmente suas

    vidas; a terceira abordagem mostra que o divrcio no tem qualquer

    influncia sobre os filhos e em alguns casos pode ser a melhor sada para

    a famlia. Ribeiro acrescenta que os autores desses estudos so consensuais

    em considerar as conseqncias relacionadas a trs variveis: a idade dos

    filhos na poca da separao; o sexo da criana e do adolescente; o conflito

    familiar que envolve a separao.

    A influncia do relacionamento familiar sobre a formao da auto-

    estima a base deste captulo. Rosenberg (1989: 88), estudando os efeitos

    do rompimento familiar sobre a auto-estima de adolescentes, afirma que

    "depende, em primeiro lugar, de quem se divorciou ou enviuvou; depende,

    em segundo lugar, de quando ocorreu o divrcio ou a viuvez; depende, em

    terceiro lugar, do que aconteceu depois do divrcio ou da viuvez". Bowlby

    (1998: 308), comentando sobre os efeitos da morte dos pais sobre os filhos,

    reafirma que a forma como a criana enfrenta a perda de um genitor

    "conseqncia direta do efeito que a perda teve sobre o comportamento do

    genitor sobrevivente com relao criana".

    82

  • Para compreender os efeitos que o afastamento dos pais provoca na

    criana, crucial entender se o ambiente relacional de agresso, irritao,

    angstia, insegurana e intolerncia . Na presena dessas situaes

    negativas, a auto-estima da criana pode ser danificada. Tambm so

    condies necessrias formao da auto-estima: presena de limites claros

    e estabelecidos e atitude parenta I de respeito s aes da criana (Rosenberg,

    1989; Coopersmith, 1967).

    A relao familiar uma rea de pesquisa que tem despertado grande

    interesse nos pesquisadores nas ltimas dcadas . Sob o enfoque da

    psicologia do desenvolvimento, investigaes sobre a interao entre pais

    e filhos , tanto em termos de processos normativos do desenvolvimento

    infantil quanto da etiologia de aspectos patolgicos do comportamento de

    crianas e adolescentes, tm sido presena constante na literatura cientfica

    nacional e internacional (Hutz, 2002; Rosenberg, 1989).

    Uma famlia bem-sucedida aquela que tem a habilidade de transformar

    crianas em adultos competentes: "uma famlia de sucesso produz crianas

    que so emocionalmente fortalecidas, que encontram um lugar,

    profissionalmente, e que mantm relacionamentos" (Garbarino, 1995: 53).

    O relacionamento familiar mostrou ser um dos aspectos mais

    relevantes na questo do sentimento dos adolescentes entrevistados em

    relao a si prprios. Esses relacionamentos estabelecem-se em estruturas

    familiares diversas que possibilitam ou dificultam os contatos afetivos.

    Nessa juno de estrutura e relacionamento que os jovens reconhecem a

    si prprios, seus afetos e desafetos nas relaes com os familiares, que

    variam em intensidade, de acordo com os grupos de auto-estima.

    ESTRUTURA FAMILIAR

    A presena dos 'pais' como base familiar foi relatada por 1.059

    entrevistados (67%), no existindo diferena entre grau de auto-estima.

    Wagner (2002) define essas famlias como 'intactas', pois tendem a manter

    uma estrutura tradicionalmente mais definida e hierarquizada, em que a

    83

  • figura paterna desempenha funes relativas ao sustento econmico da

    famlia e disciplina dos filhos, compartilhando a autoridade com a figura

    materna. A me responsabiliza-se mais pela educao dos filhos e pelo

    cotidiano familiar.

    Foi relatado por 18,2% dos jovens, a presena de lares com apenas um

    dos pais, a me na quase totalidade, e por 10,1% a composio de um dos

    genitores (principalmente a me) com novo parceiro. Cinco por cento dos

    entrevistados vivem com outras pessoas que no os pais. A inexistncia de

    associao entre estrutura familiar e auto-estirna diverge de um estudo realizado

    com adolescentes brasilienses, em que a presena de ambos os genitores

    influenciou positivamente na formao do autoconceito (Ribeiro, 1988).

    Nas entrevistas com os adolescentes, percebeu-se que a forma de

    enfrentamento dos problemas, mais do que os fatos em si, explica a diferena

    entre os grupos. Entre os de 'elevada AE' foi relatada uma nica separao

    entre pais, quando o entrevistado tinha 6 anos de idade. A famlia se

    recomps com a chegada de um padrasto, sem que maiores detalhes

    perturbadores fossem dados. Dois entrevistados de 'baixa AE' demonstraram

    marcas precoces que transtornaram os rumos : a separao do pai, vivida

    pelo aluno como rejeio e a morte do pai com doena crnica. Em ambos

    os casos os relatos se apresentam como aspectos 'insolveis' de histrias

    de vida. Embora os adolescentes entrevistados tenham tido suas famlias

    reconstitudas por padrastos, a ruptura parental inicial foi vivida como

    condio que fragilizou o estado emocional e continuou conduzindo seus

    destinos. Um desses adolescentes traz esse sentimento na sua primeira

    fala da entrevista, ao ser. questionado a falar um pouco sobre sua vida:

    "minha vida foi sem o meu pai, porque minha me separada do meu pai,

    eu sempre vivi sem pai" (Bento) .

    Entre alunos de 'mdia AE' foram comuns os depoimentos de que

    no conheceram a figura paterna e no sabiam informar sobre a separao

    dos pais. Problemas como uso de drogas e abandono ainda na gravidez

    marcam a fala de vrios jovens. A separao dos pais relatada com pesar.

    Rosenberg (1989) relata que quanto mais nova for a me que fica

    s, maior ser sua influncia sobre a auto-estima da criana, pois, me

    84

  • jovem com filhos pequenos fica em posio difcil e vulnervel. A me

    costuma sentir-se insegura, angustiada e irritada, afetando assim o

    desenvolvimento da personalidade da criana. Outro fator apontado por

    Bowlby (1998), que filhos pequenos de mes solitrias esto mais sujeitos

    a serem cuidados por terceiros, durante certos perodos e de maneira inst