1.fundamentos epistemológicos da medicina introdução

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Epistemologia da Medicina ou Gnosiologia Médica

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1. FUNDAMENTOS EPISTEMOLGICOS DA MEDICINALuiz Salvador de Miranda S Jr.

No correto fundamentar a Arte Mdica sobre uma (s) hiptese. Sem dvida, este o caminho mais cmodo. Tudo se simplifica quando se admite uma s causa fundamental para a enfermidade ou a morte - e sempre a mesma para todos - representando-se esta causa mediante um fator ou dois, sejam estes o calor e o frio, o mido e o seco ou outra coisa qualquer. Porm, desta maneira, destri-se o princpio e o mtodo em virtude do qual, em pouco tempo, se realizaram muitas descobertas maravilhosas. E tambm se descobrir o que falta, caso o investigador capaz e conhecedor do que j foi feito, inicie a novas investigaes. Por isto, devemos aprofundar nossos conhecimentos, de maneira que os erros nos afastem muito pouco, em qualquer direo, do caminho reto ... Creio que ainda muito longo o caminho a percorrer antes de alcanar uma cincia que nos possa dizer, at os menores detalhes, o que o homem e para que veio ao mundo. HIPCRATES, de Cs.

Prlogo

Hipcrates j reconhecia a futilidade de buscar uma nica explicao para todas as enfermidades como tantos faziam e fazem ainda. Como acontece a todos os objetos das cincias, a doenas precisam ser explicadas. O que seus contemporneos praticavam e que muitos autores atuais insistem em repetir, alheios aos ensinamentos dos mais antigos.

Principal ou exatamente, talvez, porque eram mais antigos, ou a despeito de serem os mais antigos?

A psiquiatria revive hoje um atraso epistemolgico de dois sculos, na medida em que se aferra descrio para diagnosticar a aparncia das enfermidades e tratar os enfermos que apresentem aqueles sintomas unicamente a partir dessas informaes.

Este texto pretende fazer uma introduo ao estudo da Iatrofilosofia do ponto de vista de seu autor, a filosofia da Medicina, especialmente como uma teoria do conhecimento mdico, a gnosiologia ou epistemologia mdica (especificamente naquilo que se refere ao aspecto cientfico do conhecimento mdico). E fazer tudo isto a partir da medicina hipocrtica e seu desenvolvimento at os dias atuaisINTRODUO

A Medicina existe como profisso multimilenarmente organizada na sociedade e incumbida por ela de diagnosticar as enfermidades e atender s necessidades de cuidado das pessoas doentes e que evoluiu para atender a muitas outras demandas sanitrias dos indivduos e comunidades das quais emergem necessidades relacionadas com a sade e a enfermidade de sua componentes. Como toda profisso sanitria, a Medicina contm trs dimenses essenciais: uma dimenso cientfica, uma dimenso econmica e outra, tica, solidria e humanitria, que neste caso, deve constituir sua faceta dominante. Iniciada como atividade mgica e supersticiosa, muito antes de que se pudesse entender as enfermidades e os enfermos como condies naturais, a Medicina foi uma raiz vigorosa da cincia, tendo sido uma das principais fontes do conhecimento cientfico e uma de sua aplicaes mais importantes. Desde sua origem no passado muito remoto, bem antes que o surgimento da escrita indicasse o incio dos tempos histricos, a Medicina mantm estreita relao com o conhecimento da natureza, conhecimento que mais tarde veio ser chamado de saber cientfico, tendo conservado essa relao ao longo de toda histria da humanidade e das civilizaes que os homens construram. Por isso, no seria ocioso afirmar que ela foi um dos ramos mais precoces da cincia e tem sido um dos seus captulos mais importantes ao longo de seu desenvolvimento.

Destarte, quando se pretende rever as razes fundamentais da Medicina, bastante natural que se inicie este estudo pela reviso de sua fundamentao cientfica, o que se pretende fazer neste trabalho, ainda que superficialmente. Trata-se aqui do que ser o conhecimento, especialmente o conhecimento cientfico e de como a Medicina se caracteriza como uma atividade de base cientfica e tica. Isto , uma prtica social humana assentada sempre que possvel no conhecimento cientfico e norteada por exigncia morais inafastveis. Isto porque, desde que os humanos elaboraram qualquer forma de conhecimento que mereceram a adjetivao de cientfica os mdicos estavam entre os que a edificaram e aperfeioaram. Assim como no se pode deixar de considerar sua contribuio para a tica, notadamente da tica profissional.

Igualmente, quem quer que pretenda fazer um estudo abrangente da evoluo das cincias, especialmente do conhecimento cientfico da natureza e do Homem, ter que dedicar espao e tempo aos avanos cientficos e tcnicos da Medicina, em cada momento do desenvolvimento da sociedade humana. Porque no possvel estudar o surgimento e o avano da Medicina ao longo da evoluo da civilizao, seno como um processo permanente e permanentemente inacabado de criar e incorporar cincia e tecnologia antiqussima arte de curar, atividade humana voltada para o diagnstico das enfermidades e o tratamento dos enfermos. Nem parece vivel pretender estudar as cincia ou o desenvolvimento das profisses tecnocientficas ignorando a Medicina. E mais ainda quando se tratar das profisses de sade.

Analogamente, parece invivel estudar o conhecimento medico como se fosse qualitativamente superior ao restante do conhecimento cientfico ou filosfico, por que no . apenas diferente. Como a medicina diferente das demais profisses da rea da sade. O conhecimento mdico uma modalidade particular do conhecimento cientfico e, por isto, depende muito do conhecimento filosfico, no apenas da metodologia e da tica, como muitos teimam em fazer, mas tambm da ontologia, da gnosiologia, da lgica. No se deve esquecer que as cincias da natureza, inclusive as cincias mdicas, nasceram sob a designao de Filosofia da Natureza de onde cresceram ao estado atual.

Este trabalho um esforo para mostrar essas conexes, ao menos no que elas tenham de mais elementar.

Medicina: Arte e Cincia Este estudo se inicia pela avaliao do antigo costume definir a Medicina como cincia e arte de curar. O que, nesse caso, deve ser precedido do procedimento de definir o exato significado de cada um destes termos, cincia e arte (o que se h de fazer adiante). Ao longo da Histria, a Medicina foi tida como elaborao terica sofisticada, uma prxis tcnica complexa e uma atividade social importante; tanto como desempenho individual, quanto como construto sociocultural presente desde muito precocemente da Histria da Humanidade. Desde sua origem, quando se separou do sacerdcio na Grcia Clssica, a Medicina tem sido uma atividade individual que exige disposio especial e longo preparo tcnico de seus agentes, os mdicos, e uma entidade social complexa, impossvel de ser reduzida a uma nica dimenso que a contenha completamente. Ademais, exige controle cuidadoso de sua pratica.

Desde sua origem como atividade racional e socialmente til, tal como aconteceu a todas as ocupaes promovidas a profisses, a Medicina mostra-se dotada, simultaneamente, de trs dimenses inseparveis:

- uma dimenso socioeconmica (modalidade de trabalho social, ocupao privilegiada, profisso, que os gregos antes chamavam tekn e os romanos, ars, arte);

- uma dimenso tcnico-cientfica (um tipo superior de conhecimento confivel, uma habilidade especial na aplicao de uma tcnica); e - uma dimenso intersubjetiva (uma relao dessimtrica de dois sujeitos, uma interao particular de servio e ajuda de duas pessoas, uma que necessita cuidados e outra, apta, capacitada e habilitada para cuid-la).

Tais planos existenciais do trabalho mdico representam mais que s trs tipos de papis que os mdicos devem representar em seu labor. At hoje, a Medicina integra elementos de todas essas trs dimenses inseparveis, que constituem as linhas-mestras de sua estrutura. Cada ato mdico sintetiza propores diversas de cada uma dessas dimenses. Entretanto, deve-se frisar que ela no inteiramente redutvel a qualquer uma delas. Nem deve ter supervalorizada sua dimenso tcnica ou a mercantil.

Tradicionalmente, ao menos na Medicina ocidental, empresta-se maior importncia dimenso intersubjetiva da relao do mdico com o paciente; relao interpessoal de confiana, servio e de ajuda entre algum que necessita de ajuda e algum que est tecnicamente capacitado e socialmente habilitado para ajudar. De fato, no deve ser considerado correto reduzir a Medicina sua dimenso cientfica ou superdimensionar essa sua vertente econmica em relao s outras duas, pois isso se denomina tecnicismo ou mercantilismo. O que destruir o ncleo humanitrio essencial da atividade mdica.Todos (ou quase todos) os mdicos se ofendem se forem chamados de mercantilistas (ainda que o sejam de fato). Ao mesmo tempo que, qualquer mdico cuja atividade se mostre superlativamente cientificista, reage toda vez que for chamado assim (principalmente em pblico), ainda que o sejam tambm. No entanto, nenhum se ofende se for denominado humanista, ainda que no merea tal designao.

A Medicina uma atividade econmica, na medida em que se materializa na produo de servio mdicos no mercado de servios oferecidos populao e esta dimenso seja importante para seus praticantes, que no podem prescindir delas. Mas no pode nem deve ser caracterizada como uma relao de consumo, como desejam algumas tendncias jurdico-polticas claramente mercantilistas ou antimdicas. Situao anloga, como acontece com os tecnicistas e os burocratistas (mdicos que supervalorizem as exigncia formais do atendimento, em detrimento das necessidades das pessoas e constituem grave ameaa assistncia mdica, tanto na atividade individual quanto na assistncia pblica. H quem atribua aos mdicos essas tendncias tecnicista e mercantilista na sociedade atua como influncia cultural e ideolgica utilitarista e pragmatista da sociedade norteamericana por sua hegemonia econmica e cultural.Na cultura norte americana atual, a condio mais importante para que profissional, mesmo mdico, ser considerado um vencedor ganhar muito dinheiro. O que uma interpretao muito limitada e alienad

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