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Linchamento virtual,v iolncia real

Campinas, 26 de setembro a 2 de outubro de 2016Campinas, 26 de setembro a 2 de outubro de 2016

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Foto: Antonio Scarpinetti

Fotos: Divulgao/Reproduo

nome da dona de casa Fabiane Maria de Jesus talvez hoje passe despercebido. Quem ir se lembrar o quanto, em 2014, se falou sobre ela nas redes sociais ou, mais especificamente, so-

bre sua morte. Fabiane, me de dois filhos, 33 a n o s , foi linchada por moradores do bairro Morrinhos IV depois de confundida com uma sequestradora de crianas quando voltava para casa, na cidade paulista de Guaruj. A agresso foi devidamente registrada em fotos e vdeos que viralizaram nas redes sociais.

O motivo da confuso dos linchadores: uma postagem em uma pgina noticiosa da cidade, no Facebook, que divul-gava um retrato falado da suposta sequestradora, que esta-ria fazendo vtimas na cidade. Mais tarde soube-se que nem mesmo o desenho correspondia denncia. Tratava-se de um retrato feito dois anos antes, no Rio de Janeiro, relacio-nado a outro caso. Tratava-se de um boato. Sempre houve boatos, certo, sempre houve linchamentos, mas as redes sociais so novas. E por redes sociais entenda-se potncia, tudo elevado ao quadrado.

Neste caso um boato, que comeou na rede, teve con-sequncias trgicas fora dela. Outras vezes, ocorre o inver-so. Algum acontecimento do mundo real que vai parar no virtual, mas que tambm resulta em consequncias para os envolvidos. So ocorrncias do que a prpria mdia chama de linchamento virtual, que pode resultar em morte ou dano fsico, como no caso do Guaruj, ou moral, como foi o caso de Justine Sacco.

Diretora snior de comunicaes em uma empresa nor-te-americana, prestes a embarcar para sua viagem de frias frica do Sul, Justine postou no Twitter: Estou indo para a frica. Espero que eu no pegue Aids. Brincadeira. Eu sou branca! . Quando desceu do avio, sua mensagem j era o assunto mais comentado entre todos os usurios da rede. Ela no pode se hospedar no hotel sob ameaa de que se o fizesse os funcionrios entrariam em greve, perdeu seu em-prego e luta at agora para ser esquecida.

Uma reflexo sobre o tema realizada pela pesquisadora Karen Tank Mercuri Macedo supe que h uma srie de con-tradies, ou paradoxos, envolvidos nos linchamentos virtu-ais. So essas contradies que funcionariam como engrena-gem para as relaes sociais mediadas pelas Tecnologias da Informao e da Comunicao (TICs). Karen, que tambm e funcionria da Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp, definiu algumas delas em sua abordagem: pblico e privado, virtual e real, liberdade e controle, prazer e poder justia po-pular e justia institucional, liberdade de expresso e crime contra a dignidade humana.

A dissertao Linchamentos virtuais: paradoxos nas relaes sociais contemporneas, orientada pela docente Carolina Cantarino Rodrigues, foi defendida no programa de Mestrado Interdisciplinar em Cincias Humanas e So-ciais Aplicadas na Faculdade de Cincias Aplicadas (FCA) de Limeira. O conjunto de questes mostra como as pr-

Karen Tank Mercuri Macedo, autora da dissertao: Acusaese julgamentos ocorridos em redes sociais so deslocados para a vida das vtimas, trazendo consequncias nas relaes sociais fora da internet

PATRCIA LAURETTIpatricia.lauretti@reitoria.unicamp.br

foi linchada por moradores do bairro Morrinhos

ticas e eventos relacionados ao linchamento virtual pem em xeque aquilo que habitualmente pensamos a partir das oposies entre virtual e real, pblico e privado, etc. Por isso preferimos utilizar a preposio e em vez de versus para demostrar que ocorrem de modo simultneo.

Os casos pesquisados por Karen foram reproduzidos em matrias jornalsticas on-line nos ltimos dois anos e tam-bm no livro Humilhado: como a era da Internet mudou o julga-mento pblico, do jornalista britnico Jon Ronson. Reunidos em um blog, de autoria de Karen, oito foram selecionados para a dissertao e usados para ilustrar os paradoxos, ana-lisados de forma interdisciplinar, envolvendo conceitos da Filosofia e das Cincias Humanas e Sociais.

Alm dos casos Justine e Fabiane, foram reunidos: o caso de nordestinos alvos de intolerncia na campanha presidencial de 2014; da norte-americana Alicia Ann Lynch, que publicou no Twitter uma fotografia onde aparecia fantasiada para uma festa como vtima da maratona de Boston; o caso da banc-ria Fabola, que foi filmada num motel em episdio de traio e teve o vdeo disponibilizado na internet; o caso de um supos-to agressor de mulheres, exposto num blog feminista; o caso de uma enfermeira em Tiradentes (MG) que foi filmada num posto de sade numa atitude grosseira contra os usurios; alm do caso do professor Idelber Avelar, acusado de assdio.

CONEXOMuitos no percebem, mas a partir do momento em que

uma pessoa liga um computador conectado internet e aces-sa uma rede social, todos os seus cliques sero monitorados. O nome desse fenmeno algoritmo, uma srie de cdigos baseados em inteligncia artificial que esto no Facebook e em outros sites e que, com base na navegao do usurio, relaciona contedos semelhantes para serem mostrados.

Oferecer uma plataforma gratuita onde o usurio pos-sa se conectar com amigos distantes e conhecer pessoas do mundo inteiro um bom atrativo. Todavia, ao mesmo tem-po em que se incita a circulao e a sensao de prazer dos usurios, empresas e governos potencialmente os vigiam e controlam, observa Karen.

No virtual, h mudanas nos modos de ser, agir, pensar e sentir. Nas redes sociais, o pensamento automatizado pre-domina. E para qualquer ao equivocada, sempre haver algum conectado, em qualquer lugar do mundo, para ler, curtir, comentar, compartilhar. E nem precisa ser da mesma rede social, visto que possvel o compartilhamento entre redes de relacionamento on-line, ressalta a pesquisadora.

Muitas vezes no d tempo de se arrepender e nunca se sabe qual ser o alcance de uma publicao. Justine Sacco pensou que sua mensagem iria apenas para seus 170 seguido-res, porm foi a mais vista no mundo pelo Twitter. O mesmo aconteceu com Alicia, que no imaginava que sua foto chega-ria inclusive para as prprias vtimas do atentado de Boston.

Nos casos de linchamentos virtuais, o virtual e o real fi-cam embaralhados. Acusaes e julgamentos ocorridos em redes sociais so deslocados para a vida das vtimas, trazen-do consequncias nas relaes sociais fora da internet.

A postagem que resultou no linchamentode Fabiane Maria de Jesus (centro), cuja morte foi alvode protestos em Guaruj: consequncias trgicas

Publicao

Dissertao: Linchamentos virtuais: paradoxos nas relaes sociais contemporneasAutora: Karen Tank Mercuri MacedoOrientadora: Carolina Cantarino RodriguesUnidade: Faculdade de Cincias Aplicadas (FCA)

O hbito de fazer da rede social uma espcie de dirio di-gital on-line tambm faz com que haja uma confuso na per-cepo de quais assuntos podem ser falados publicamente. H um enfraquecimento do conceito de pblico e privado. A privacidade passou a ser exteriorizada, principalmente nas redes sociais. O medo agora no o de que o segredo possa ser revelado, mas sim que o outro no veja ou no curta suas publicaes.

Como tambm caracterstica nas redes sociais perse-guir padres de comportamento, quando um grupo passa a usar a ferramenta para denunciar, xingar e julgar, muitos usurios acabam aderindo e, consequentemente, contri-buem para alastrar os casos de linchamentos virtuais.

No caso Fabola, se no fosse a presena da Internet, o fato talvez ficasse somente entre familiares e amigos. Ao ser externalizado nas redes sociais, como uma espcie de vingana, abriu-se a possibilidade para comentrios e julga-mentos de milhares de desconhecidos, reflete Karen.

O papel dos comentrios bastante relevante para legi-timar o que foi dito na postagem inicial, segundo a pesqui-sa. Ao cair na rede, um assunto passa por uma inspeo dos prprios usurios do que aceitvel ou no, reitera. A postagem de Justine, por exemplo, foi compartilhada com dizeres que j a condenavam. J no caso dos nordestinos, havia os dois lados. Ao recorrer s redes sociais para ex-ternar alguma indignao procura-se por semelhantes que engrossem o coro e se juntem massa, para que nela deixem vir tona toda sua raiva.

Como as TICs j fazem parte do cotidiano das pessoas, salienta a autora, cabe-nos expor sociedade que existem sempre e no mnimo dois lados a serem considerados nos pronunciamentos e comportamentos on-line.

Justine Sacco, no Twiter, antes de ir para a frica do Sul (alto) eos comentrios sobre nordestinos na eleio de 2014: intolerncia e preconceito

Fotos: Divulgao/Reproduo